31/08/2017
Acaboooou caraaaaai!
https://bikeamericaprojeto.wordpress.com/2017/08/30/fim/
Clique no link acima pra ler o texto com a música. Ou leia aqui mesmo:
FIM!
Se é chato chegar a um objetivo num instante, eu tenho que dizer: pedalar por três anos pra chegar ao destino é do ca***ho!
O letreiro no alto à minha frente diz claramente: México. Não sei se devido ao sol ou por causa dos olhos marejados, as letras se embaraçam, piscam, mudam de lugar e começo a ver outras palavras. Mompox, Siguatepeque, Ayangue, Moyobamba, Cristovão.
Engulo seco, tomo um gole de água e sinto um gosto diferente. Parece suco de abacaxi com laranja. O segundo trago muda pra suco de umbú, depois sapoti, água panela, jamaica.
Tiro os óculos de sol e fecho os olhos bem apertados. Deve ser insolação. Quando abro, a rua se transformou em rio e o muro em árvores. Estou novamente na Amazônia, e os dezoito dias de barco do Brasil ao Peru voltam frescos à memória. Belém, Manaus, Tabatinga, Letícia, Santa Rosa, Iquitos, Yurimaguas, Breves, Tonantis, Gurupá. Sinto o ar úmido pesado, os verdes intensos, o Rio Negro e o Marañon, tudo ao mesmo tempo em um único segundo.
As letras se multiplicam, e aparecem frases inteiras. É promessa? Uma aposta? Boa viagem. Já almoçou? Aceita um café? Vai com Deus. Muito prazer, muchas gracias, quando volta?, não esqueça de nós. Gr**go, mister, senhor, bicicleteiro, pedalinho...
Ao lado de cada frase, surgem rostos conhecidos que guardam histórias secretas. Sorrisos banguelas, sobrancelhas levantadas de preocupação, pupilas dilatadas, pálpebras entreabertas, peles queimadas, lágrimas de saudades na despedida de um recém-amigo. Gazu, Nilsão,Gudan, Marcela, Mario, Jacinto, Melanie, China, Armando, Juan, Cauatã-Xohã dos Pataxós na Bahia e centenas mais.
De lá, me deixo levar novamente pelas praias espetaculares do nordeste. Maracaípe, Sagi, São Miguel do Gostoso, Galinhos, Jeri, Massarandupió, Mundaú, Lagoa Azeda e incontáveis outras praias ainda sem nome.
Uma nuvem cobre o sol e sinto o frio das montanhas do Peru, Equador e Colômbia, os trechos mais difíceis que podiam ser feitos sem a bicicleta. Só fazia caminhar estrada acima a até 3 mil metros de altitude. Haja cordilheira pra subir até chegar ao Pacífico e ao Caribe.
Um bem-te-vi canta e me leva a um reencontro com os animais. Pássaros, peixes, cobras, crocodilos, macacos, lagartas, gafanhotos, aranhas, escorpiões, golfinhos, arraias. Um mais especial que o outro.
Quando volto a mim mesmo, o letreiro se transforma pela última vez. Em vez de México, leio Socorro. Meus pelos se arrepiam e as pernas começam a tremer. Mais que um pedido de ajuda, é um chamado, que boto pra fora com um grito de saudade. De todos os lugares onde ainda se vive, é pra lá que vou voltar.
Fim!
Pra ouvir enquanto lê: — Se é chato chegar a um objetivo num instante, eu tenho que dizer: pedalar por três anos pra chegar ao destino é do ca***ho! O letreiro no alto à minha frente diz clar…