08/05/2026
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A aritmética do abandono
Três de Maio sopra 71 velinhas neste domingo. Para quem nasceu ali, como eu, o aniversário da "Cidade Canção" ou "Cidade Jardim" costuma ter gosto de celebração e reencontro. Mesmo a quatro décadas de distância física, o cordão umbilical com a querência permanece intacto, alimentado pelo trabalho familiares que ficaram e pela memória da formação que recebi. Mas, neste 3 de maio de 2026, o bolo está solado e o parabéns soa desafinado.
O motivo do amargor tem nome e endereço: a desativação da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Martinho Lutero, em Entrada Barrinha. É onde ensaiei meus primeiros passos no mundo das letras e onde, agora, o poder público decidiu passar o cadeado.
A justificativa oficial é aquela velha conhecida dos gabinetes que preferem planilhas a pessoas: "falta de alunos". Dizem ser 19; a realidade grita que são 23 crianças órfãs de seu chão. É uma aritmética curiosa essa dos nossos gestores. Para economizar o salário de um professor e a manutenção de um teto, gasta-se agora o triplo em logística: onde bastava um veículo para o transporte escolar, hoje três serpenteiam as estradas para levar as crianças aos centros urbanos saturados. É a economia que sai caro, regada a óleo diesel e cansaço infantil.
No saguão da escola, um painel ainda resiste como uma sentinela de afeto: “Nesta escola no campo viajamos através do conhecimento em harmonia com a natureza!”. O lema, infelizmente, virou peça de museu. O projeto político atual parece preferir o "campo sem gente". Ignoram que a sucessão rural não se faz no asfalto. Ao "aculturar" o jovem na cidade desde cedo, o poder público assina o atestado de óbito da pequena propriedade. Sem escola, o distrito morre; sem jovens, o campo envelhece; sem sucessão, a economia — que Três de Maio tanto se orgulha de ter na agricultura — vira monocultura de saudades.
O Brasil fechou 111 mil escolas rurais em 24 anos. Uma a cada duas horas. Três de Maio, que nasceu da luta abnegada de quem construía escolas antes mesmo de ter prefeitura, resolveu agora entrar para essa estatística tenebrosa. Falta criatividade ou, talvez, falte apenas o interesse em entender que educação no campo não é gasto, é investimento de sobrevivência.
É irônico que, em uma terra de produtores que não têm folga nem feriado para alimentar o mundo, a gestão municipal não consiga manter aberta a porta que ensina o filho do agricultor a valorizar o próprio destino. Parabéns, Três de Maio. Mas, desta vez, o presente que deram à Entrada Barrinha foi o silêncio de uma sala de aula vazia. E esse é um débito que nenhuma emenda parlamentar será capaz de quitar.Otto Tesche