19/03/2026
A série “Transe” foi construída a partir de fotografias realizadas em um carnaval de rua, espaço de suspensão, excesso e dissolução das formas estáveis do corpo e da identidade. Captadas em preto e branco e muitas com longas exposições, as imagens recusam o instante decisivo e se inscrevem em um tempo dilatado, onde movimento, luz, presença e o imaginário se acumulam na superfície fotográfica. A fusão transforma o corpo em rastro. Braços, brilhos, transpiração, tecidos e gestos não se fixam. Vibram, escorrem, se sobrepõem. O que se vê não é o corpo isolado, mas o corpo em fluxo, atravessado pela música, pelo coletivo, pela vertigem própria do carnaval. A rua deixa de ser cenário e passa a operar como campo sensorial, onde tudo se mistura: saliva, poeira, fumaça, luz artificial e pulsação. Sobre as fotografias registradas, a Inteligência Artificial foi introduzida como uma segunda instância de mediação. Não para corrigir ou simular realismo, mas para intensificar o estado de instabilidade já presente na imagem. A IA atua como um agente de deslocamento, reorganizando volumes, ritmos e continuidades, amplificando falhas e desfoques, produzindo imagens que oscilam entre o reconhecível e o estranhamento…