24/10/2026
Bangladesh.
Aquela montanha não é uma montanha. É tudo aquilo que decidimos deixar de ver depois de o deitarmos fora. Uma montanha de lixo.
Uma escavadora ergue lixo contra o pôr do sol, como se estivesse a esculpir paisagem. E, no meio dela, um homem caminha à procura de algo que ainda tenha valor — plástico, metal, vidro — enquanto pássaros e cães disputam o mesmo terreno.
Não é uma imagem sobre pobreza. É uma imagem sobre consequência.
Nós, os que vivemos longe destas montanhas, continuamos a comprar, a trocar, a descartar, convencidos de que o lixo desaparece quando sai à porta de casa. Não desaparece. Vai para algum lugar. E nesse lugar há sempre alguém a tentar sobreviver dentro daquilo que o resto do mundo decidiu esquecer.
Fotografei este homem contra a luz, de propósito. Porque, de certa forma, é isso que fazemos a quem vive disto: apagamos o rosto, guardamos a silhueta, e seguimos em frente sem perguntar o nome.
Viajar devia servir para isto: para nos tirar da confortável distância entre a nossa vida e as suas consequências. Para nos obrigar a olhar de frente para aquilo que preferíamos que fosse invisível.
Não trago esta fotografia para chocar. Trago-a para lembrar que cada escolha de consumo que fazemos tem um lugar onde pousa — e, muitas vezes, esse lugar tem gente a viver dentro dele.
Fotografar é muito mais do que aprender a usar uma câmara.
É aprender a olhar. E, às vezes, é aprender a incomodar-nos com o que vemos.
📍 Bangladesh
📷 Leica Q3