10/03/2021
1940mortos
em 24 horas
Hoje acordei pensando em meus mortos. Só nos meus.
Senti o cheiro do perfume do cabelo loiro de minha amiga, era um abraço tão apertado, gostoso.
Lembrei de um antigo namorado cuja boca era uma ofensa, com aquela barba macia e a sua liberdade na estrada para Marilia. Lembrei de meu compadre q nos presentava com a amizade de uma Pomba-gira e seu Exu em conversas filosóficas noites adentro. Do feio bigode do marido de minha vizinha de infância e seu cigarro inseparável. Dos irmãos de minha mãe, meu tio predileto, mas um irresponsável com a vida, dos amores não vividos e dos vividos sem rede de proteção. Do colega de escola q numa curva em frente de casa foi levado por um motorista bêbado. Da filha pititica de um paquera q tb foi levada por um carro qdo corria para abraçar o pai. O mendigo baleado pelo policial que queria se mostrar importante, mas só vi crueldade. Do menino sem perna q lutou contra um câncer com uma alegria inesquecível e que mal tinha uma década. A mãe de uma amiga q fez sua festa de bodas só para encontrar o seu grande amor ao altar. A outra mãe, que mesmo em sua senilidade sorria com a mesma docilidade de quando a conheci. Meu querido tio que sempre dirigiu bêbado até matar cinco numa estrada na contra mão. Meu companheiro de republica largado num hospital em tempos q AIDS era peste gay. A amiga baiana q um dia bebia conosco e em poucos meses precisou usar fralda e partiu. A ajudante que me servia chá durante minha primeira gravidez.
Meu pai
Meu marido
Nenhum deles está aqui agora, nenhum partiu por ignorância ou negligencia do Estado. Nenhum deles
Ontem mais um número absurdo de pessoas ficou sem os seus. Nenhum deles é morto meu.
Não há governo, não há solidariedade, não há povo. Não há cidadania
Pobres médicos enxugando gelo...pobres soldados da saúde lutando uma guerra sem suporte, sem suprimentos...
Pobres mortos...
Ainda assim haverá loja aberta porque não pode deixar de vender, haverá gente nos bares para se divertir, haverá quem dê desculpas para agir como se não lhe houvessem mortos. Como se só os seus mortos valessem.
O cheiro do cabelo da Dani vai ficar comigo hoje, o seu abraço, a lembrança das horas de conversas intimas e profundas...Nossos cafés...
Esse mês completaríamos 15 anos de casada.
Meus mortos
Nem sequer um minuto de silencio, nenhum respeito aos números, são números.
Não são seus, nem meus mortos. Mas não são números