Write is my freedom

Write is my freedom Amante da capacidade imaginativa do ser humano, das intenções do ato comunicativo e da originalidade intrínseca a todo esse processo. ✏�

11/05/2018

Destinado ao meu ex melhor amigo...

Eu seria a pior mentirosa do mundo se eu negasse que todos os dias morro de saudades de ti, sinto sua falta quando acontece algo bom ou até mesmo ruim na minha vida e penso em dividir contigo, sinto sua falta quando vejo alguém com o cabelo parecido com o teu, sinto sua falta quando sinto alguém usando o mesmo perfume de bebê que o seu, eu sinto sua falta quando me recordo das nossas conversas loucas e diabólicas, sinto sua falta quando vejo algo e penso "é a cara dele, ele iria gostar de ver isso", sinto sua falta quando lembro dos seus xingamentos - que apesar de ser xingamentos, era fofos. Sinto sua falta quando lembro do conforto e segurança que tu me dava, mas, do que mais sinto falta é do teu abraço, do teu sorriso, das nossas discussões sem cabimento, da sua falta de senso em diversos momentos, do seu jeito puro de ser, da tua risada disfarçando o ciúmes que tinha de mim com outro amigo, do seu "chegou bem?", "você é uma ridícula, mas eu te amo”, do teu jeitinho carinhoso e sensível por de baixo dessa casca de durão e frio.
Mesmo sem nos falarmos há muito tempo, mesmo distante, eu te desejo as melhores vibrações do universo e toda lasanha, todo doce, toda pizza de calabresa que o planeta pode te oferecer. Que consiga ir nos melhores rolês, que continue cantando "all of me" do John Legend com toda a força da sua voz, lembrando de como cantavamos juntos, de como a tua voz se encaixava perfeitamente com a minha, olhando um pro outro. Que você seja feliz fazendo o que mais ama no mundo, com as pessoas que você mais ama no mundo. Que você consiga iluminar a vida de muitas pessoas, assim como iluminou a minha, quando ela se encontrava em completa escuridão. Que você consiga realizar aquele seu sonho antigo que só eu e você sabemos qual é. Que você receba muitos nudes. Que pessoas desconhecidas sorriam para ti na rua e que isso faça o teu dia mais feliz. Que você tenha sucesso em tudo que se dispor a fazer. Que você converse muito com Deus mais vezes e sinta AQUILO - que sabemos bem o quê - novamente. Que você ame muito e que seja amado na mesma intensidade também. Que você tenha um filho, que te dê a chance de ser diferente do que o seu pai foi para ti. Que dê muitos beijos apaixonados assistindo Harry Potter. Que faça muito amor. Que um dia perceba que, embora eu tenha cometido erros estúpidos contigo, da mesma forma que você cometeu comigo, minha intenção jamais foi magoar a ti, que eu preferia me jogar na frente de um carro do que ver o seu coração quebrado por minha causa. Eu queria que você pensasse ou sentisse da mesma forma. Que sejas feliz, não importa como, com quem ou onde, que seja plenamente feliz, assim como um dia me fez.

Eu ainda te amo, imensamente, com todo o meu coração e alma. Por você, eu faria mil vez.

- Déborah Moura -

10/01/2018

Por fim, ficaram as lembranças. Me flagro analisando cada uma delas como se fossem pinturas abstratas. São quadros de memória que me remetem a cada gesto seu, e estão fixos ali. Não consigo me mover, milhares de pensamentos me sobrevém em questão de segundos. Observo, imobilizada, uma vida que outrora pertencia a nós. Sinto aquele embrulho no estômago típico de quando nos pedem para analisar uma pintura e nossa especialidade é fazer bolos. Não há o que dizer. Algumas coisas não estão ali para serem ditas, mas para preencher a ausência das palavras. Não há dor e tampouco euforia, não há rancor, nem saudade... Ou há saudade? É cedo demais para sentir saudade?
Que seja, só consigo ver as lembranças que lentamente vão se dissipando; e ao perceber, me apresso em eternizar o momento no texto mais singelo possível. Que seja simples, mas que caiba você... Mas você quem? Ao recuperar meus sentidos, percebo a grande bobagem que disse; eu não sei fazer bolos.
- Beatriz Néris

"Ele calçou as botas de couro, viu pela janela o sol que se levantava, abriu e fechou a porta atrás de si. Partiu."Há um...
14/12/2017

"Ele calçou as botas de couro, viu pela janela o sol que se levantava, abriu e fechou a porta atrás de si. Partiu."

Há um momento de vida, mas é singelo. Há um momento de pensamento, mas é controverso. Há um momento de levantar as mãos para o céu, mas é comedido. Há um momento de olhar para trás, mas é medroso. Há um momento de olhar para o que se foi, mas provoca choro. Há um momento de se equilibrar no meio-fio, mas é lúdico. Há um momento de fé, mas é abstrato. Passo sobre passo atrás de passo, ritmo e velocidade, compasso, flashes mentais, cenas interrompidas, sons aleatórios, passo sobre formiga atrás passo, uma folha seca, crec. Passo, cadarços bem amarrados. Há um momento de sorrisos, mas é barato. Há um momento de promessa, mas é desconfiado. Há um momento de diversão, mas é um só momento perdido em uma escura galáxia de outras horas. Há um momento de contestação, mas passa pois um somente não empurra o mundo. Há um momento de conformismo, mas é ilusão pura. Há um momento de vida, mas é disfarce. Há um momento de dança, mas embaralhamos os pés. Há um momento de beijos ardentes, mas era fogo na palha e consumiu-se.

Às vezes ele para num banco de praça, observa os pombos e a fonte. Mas o encanto só durará até o primeiro mendigo pedir-lhe um cigarro. Como fugir? Do que fugir?

Há um momento de egoísmo, mas é fatal ao espírito se se mantivesse. Há um momento de braços abertos ao vento, mas é sucedido pelo cansaço. Há um momento de sonhos realizados, mas é efêmero. Há um momento de gargalhadas, mas é vazio como o plástico. Há um momento de sonho, mas é sintético. Há um momento de fuga, mas traz efeitos colaterais. Há um momento de sobriedade, mas é insuportável. Há um momento de vida, mas é esperança tão somente.

- Déborah Moura -

São uma da manhã e minha xícara está cheia. Minha vida está vazia. Devo esquecer algumas pessoas do caminho? Parece-me q...
25/09/2017

São uma da manhã e minha xícara está cheia. Minha vida está vazia. Devo esquecer algumas pessoas do caminho? Parece-me que alguém riscou uma anotação importante aqui, o que estava escrito por debaixo? Como vou completar o sentido? São uma da manhã e meu cigarro está inteiro. Estou acabado, então? Devo reler algumas mensagens no celular? Latejante é a saudade de quem está distante. Será que aguardo em vão? Haverá outro a esperá-lo no saguão? Latente são sentimentos recentemente expostos. Dilemas e corrupções, será que haverá recompensa para minha esperança? É que nesse tempo todo eu não aprendi a depositar confiança em um corpo apenas. É que, pelos caminhos da vida, eu entendi que os outros iriam me puxar para baixo. Por isso que eu ando tão distante do chão, por isso eu tenho o meu próprio pique. Aqui, só eu me escondo. Fiz certo? É que, de repente, na iminência da mudança, apareceu-me esse dilema. Fruto da corrupção. Fruto do encontro desprevenido, da literatura dos olhos, da respiração mútua e desconfiada. Ainda sim, da correspondência confiante. E agora você está debaixo do meu travesseiro. Por cima da minha cama. O ritmo me anima, eu não consigo pregar os olhos. Fiz o certo? E agora, o que virá no dia de amanhã? Parece-me que acordo e sua imagem ainda está aqui. Sim, ela não quer se desprender e eu não quero soltá-la. É uma querência mútua. É uma querência mútua? Essa vibração em uníssono. Por um momento, somos apenas de nós. Eu acho que posso dizer – estou feliz. Eu acho que é possível avistar que, embora o futuro seja embaçado, a satisfação é concreta. Não, não deveremos medir o tempo pelo relógio. Vou rasgar o calendário. Não fará sentido contar os dias enquanto persistir a atenção. Enquanto perdurar o beijo, os ponteiros estarão pausados.

- Déborah Moura -

Onde vou me sentar agora? Parece que, nesse intervalo, perdi meu lugar. Onde vou me sentar agora? Eu, que costumava vive...
24/09/2017

Onde vou me sentar agora? Parece que, nesse intervalo, perdi meu lugar. Onde vou me sentar agora? Eu, que costumava viver paixões desmedidas, estou sentando nesse lago seco agora. Em meio a algumas ervas daninhas, próximo a pedregulhos que desafiam o esquadro por sua angulação ameaçadora. Mas mais ameaçadora agora é a minha situação de pensamentos. Desordenados e descabidos, onde eu vou me sentar agora? Em meio a uma sequência de eventos que eu não controlei, alguém ligou o ventilador e soprou toda essa areia para cima. O deslanchar da música não coincide com o abaixar da poeira. Eu não enxergo, eu ando com as mãos sobres os olhos, eu dou passos em falso. De repente toda a segurança caiu por terra, quem está no controle agora? Onde eu deixei cair a peça? São sentimentos que me travam dessa maneira e impedem minha mente lúcida de tecer soluções racionais? Quanto mais me debato, mais parece-me afundar todo o barco. Eu olho em volta mas as motivações parecem ter cavalgado para muito além do horizonte, onde também o sol já começa a se por. Onde vou aquietar minhas angústias agora? As trombetas tocam ao longe, as lágrimas escorrem perto demais. Sou responsável por mais de uma vida? Como tentar apaziguar as situações, como tornar tudo menos doloroso? Como vou extinguir a dor? Alguém me dê um manual de como resolver essas charadas que encontrei sem solicitar. No final das contas, cada um seguirá, solitário como sempre o fora, a sua vida, em rumos opostos? São vias paralelas, sem um ponto de intersecção futuro? No final, parece que já estive nesse cenário antes. Ele é sempre nebuloso, para onde quer que se olhe não há alvorada. Onde vou, meu Deus, me sentar agora?

- Déborah Moura -

20 de dezembro de 2012Inaugurações.Toca o despertador, sobe pelas minhas janelas um inconfundível cheiro de diesel queim...
17/08/2017

20 de dezembro de 2012
Inaugurações.

Toca o despertador, sobe pelas minhas janelas um inconfundível cheiro de diesel queimado. É uma combinação quase tão obrigatória quanto meus cafés da manhã regados a cafeína e nicotina. Sem eles, eles todos, eu não sobreviveria uma semana. Os caminhões despertam cedo, mais que eu, e iniciam sua caminhada diária; percursos, muitos, que incluem a minha basculante de vidro rachado, que com seu tremor também me arrasta, é dia, já.

É mais um dia na minha agenda, é data nova inaugurada no calendário da padaria pendurado num prego que se intromete entre dois azulejos na cozinha. Arrasto as chinelas, depois piso mais firmemente, depois já estou de porta de geladeira aberta, escolhendo várias coisas para acabar com poucas na mão. O relógio é meu ditador, e rezo todas as noites para que não o seja por toda a minha vida. O relógio é meu tutor e rege-me com tamanha disciplina que, quase sempre, penso se tal é necessária de fato. Entre ponteiros, primeiro de segundos, inofensivos ao primeiro beijo, mas depois de minutos, que avançam impiedosos, tenho de ferver a água e vertê-la sobre o pó, fazer rápido o café para poder ter ao menos alguns minutos devotos sobre minha mesa.

(Tudo é perigoso, tudo é divino, maravilhoso, diz Gal, e prossegue, Não temos tempo de temer a morte. A acepção desta falta agora é outra. Não temos também mais ideais improfanáveis e motivações viscerais para não o termos. Agora, tudo é bastante trivial. E lembro-me de Renato: Todos os dias, antes de dormir, lembro e esqueço como foi o dia. Sempre em frente, não temos tempo a perder... Nosso suor sagrado é bem mais belo que esse sangue amargo. E tão sério e selvagem!)

Sentado estou na minha cadeira, acompanhando meus pensamentos com uma profunda tragada nestes ci****os de palha que têm sido tão bons companheiros, e o outro olho na implacável soma dos minutos que me apontam os ponteiros ali na parede. Café desce rápido pela garganta, entra fumaça, entra café, sai fumaça. E nesse meio estou já com um pé do tênis calçado, amarrando o cinto, faltam cinco.

Inaugurado o dia e também suas felicidades, delicadas pois que se desfariam sob uma análise mais aprofundada. Inaugurada mais uma manhã, mais um amanhã, mais um capítulo desta busca, eterna enquanto consciente for. A promessa de alegria, por enquanto, é a chegada da noite, e seu acúmulo, a do fim de semana. Mais instigante que compreender-se satisfeito por tão pouco é pensar que neste regime vivem imensos contingentes de seres humanos, amaciados por entretenimentos perigosamente alienantes. Mas não vou falar de alienação, este é um assunto desinteressante, este é um papo chato. Quero saber da festa, da noite, da roupa, das parcelas do cartão, do limite aumentado, do consumo esperado, do novo smartphone, da nova coleção, dos cavalos, do motor do carro do ano.

Toca o despertador, tremendo já estão as peças de vidro da basculante pelos pneus prensados por toneladas, toneladas de rotinas e chateações, de preocupações e prazos. Todas transmitidas maquinalmente a mim, de um jeito ou de outro. Acordo, inebriado pela noite não mal, mas pouco dormida. O café e as outras fumaçam me fazem animar, embora pouco. Segue-se a segunda-feira, sob a imposição moralista dos ponteiros marrons, que correm ao bel prazer da pilha tamanho médio. Em minhas divagações de mesa coberta por toalha e farelos, a vaziez de uma sucessão de dias iguais, com atividades iguais e pouca ou nenhuma contribuição, nestas, para alguma mudança, ou quebra. Levanta-te, homem. Penso comigo. Faltam cinco!

- Déborah Moura -

É hoje, levanta a meia, amarra os cadarços, que chegou o dia.Da ponta de onde vejo a ponte, está meio a meio, prestes a ...
31/07/2017

É hoje, levanta a meia, amarra os cadarços, que chegou o dia.

Da ponta de onde vejo a ponte, está meio a meio, prestes a cair no precipício. Mas se salva como que por um fio úmido e transparente. Minha inocência se vai viajando, de braços e mãos a velejar. Um mar sereno que tranço com meus cabelos e fecha minha visão. Dali onde eu posso me postar, estou caído sobre farelos dourados, castanhas a brilhar, dançando uma ciranda sem ninguém ver meus passos, inventando que tenho o compasso. E olho por cima do ombro, jogando charme ao léu, imaginando que alguém me veja da outra ponta de onde me ponho, onde só estrelas há, e com isso a paz que brota no meu coração. Sinto transparência dos sabores que me perpassam pelos lábios, sorrindo e a doce melodia das folhagens, que acariciam meu rosto sedoso, pois que é feito de memórias. O melhor observador é inexistente, e por isso inigualável – ele olha conforme meu gosto. A sanfona que toca imprime o bater dos meus pés, que dão nós e os desatam, impossíveis, impossíveis. Cresce por detrás de mim o farfalhar das páginas, com elas os dias, os meses e as falhas. Eu enxergo por vários prismas, sento e me admiro com o que meus olhos, geniosos, contam-me. Eu vejo a família crescer, eu festejo o desabrochar da vida em cada pequeno ser, eu me orgulho. Na fila que eu deixo trilhada, sem que seja responsável, ouço palmas e ritmo a (me) vibrar. Da moita que balança aos anéis dos quais já me soltei, pulso um forró natural, pés na terra, poeira levantada. Minha inocência vai me acalentando, já sou santo não beatificado, mas sei o valor de minha intercessão. As sobrancelhas escuras dão a gravidade que a mão, leve, não tem, e executo a reza bem feita.

O que vem após a dobra da janela, o que nos espera após aberta a porta, é preciso viver pra saber... É preciso viver. De verdade.

- Déborah Moura -

Quando a consciência fala: "É. Acho que chegamos ao fundo do poço, disse, surpreso, o espelho ao homem que o fitava com ...
12/06/2017

Quando a consciência fala: "É. Acho que chegamos ao fundo do poço, disse, surpreso, o espelho ao homem que o fitava com angústia."

Vou ser sincero e te falar que não estou bem. Que digo o que vem à cabeça e isso é uma autoproteção. Vou ser direto e falar coisas que não irão agradar. Mas, afinal, quem se importa em ficar agradado? Eu penso que certas trevas crescem como hera nas paredes, e tais somos nós e nossas relações descuidadas. Mas pregaram como praga e não me vejo mais em você, e nem você me reconhece mais. Somos escuros um ao outro, temos nulidade nos olhos. Um grande vazio que suga, transformamo-nos em parasitas de nós mesmos. Um olhar, uma cartada. Fulminante.
Vou abrir o peito e dizer que não sou herói de ninguém. Mas pretendi ser, um dia, um dia que é distante agora. Vou abraçar-lhe e segredar em seus ouvidos coisas horripilantes que andei pensando. Mas é assim a vida, feita de reflexo do que imaginamos ver que, desdobrando-se de novo, é um reflexo do que pensamos que é. Mas não é, tudo é desastroso, oh, Deus! Estou encharcado de lágrimas e não as mereço. Falo de coisas grandes como a noite e tenho medo de ruídos na madrugada. Mas a verdade, tão triste de reconhecer, é que não escurecemos as vistas. Antes, escurecemo-nos a nós, tornamo-nos um oco, vago, dilatado e recluso.

- Déborah Moura -

(Não sei na voz de quem falo, não sei de quem é a voz por quem digo. Confuso fico. Posso estar falando de mim só, posso ...
23/05/2017

(Não sei na voz de quem falo, não sei de quem é a voz por quem digo. Confuso fico. Posso estar falando de mim só, posso estar falando por uma voz que nem sei se confio. Posso estar falando por dois, posso estar falando pelo depois. Só sei que falo, despejo, intrometo sem pudores. Confuso fico, mas ainda assim prossigo.)

"Então todo o movimento cessou. E o que ficou? De uma só vez pararam as bocas, pararam as contrações, as mentes, os corações. E o que pairou? Silêncio. No calor do momento, o abraço, o alento, o contentamento. Ilusões da profusão das almas e dos vapores? Mecânicos gestos previsíveis por estarem as veias tomadas de torpor?"

E, de repente, cessou todo movimento. Em silêncio permaneceram, cada qual imerso em si, possivelmente mais profundamente do que há muito tempo já tiveram a oportunidade de estar. E daquele silêncio, daquele cansaço que não era cansado, daquela desativação momentânea de todas as sinapses, o que se depreendia? Todas as frustrações passadas, lavadas? Todas as luzes, fachos poderosos, apontados numa direção que é, ou fora até então, sempre tão nebulosa, conseguiam limpar de vez aquele céu? Todas as inquietações, soterradas de uma vez ou, escavadas com mãos e unhas sangrando, com força e barro, com dor e lágrimas, trazidas à tona? Nenhum sinal, nenhum passo brusco, nada se podia saber dali. Em silêncio permaneceram. Cada qual com mãos dadas umas às outras, como que numa ciranda congelada. Mas e congelados os corações, estavam? Os segundos de uma sensação eternizam uma década. Olhos abertos olhando ora para outros, ora para o branco do gesso acima, ora para as circunvizinhanças. O que diziam? O que se permitiam? Silêncio. Cumplicidade de sentimentos, de sensações e felicidades? O que se passava ali, naquele pedaço de tempo recortado, por vezes, e tantas, imaginado? O que trazia o fato? Cortavam-se em pedaços, esmigalhavam-se os ideais de uma felicidade comunal, de um contrato conjugal, ou, pelo inverso extremo, sentiam que havia se cumprido o que há tanto era prometido, como se o cumprir-se fosse uma confirmação de uma história (quantas vezes) idealizada?
E o que era para uma voz, era o mesmo para a outra? Talvez não fosse essa a preocupação que planava naquela áurea de paz. Talvez, por uma vez, tenha cada qual chegado ao seu êxtase, fosse por si ou pelo outro, ou por todos. Perguntavam-se aquelas vozes, em seu íntimo, o que viria depois? Poderia o pensamento chegar a tanto, ou era uma sensação de que nada importaria daqui um minuto ou daqui uma semana, nada além de agora, aquele pedaço de acalento absoluto? E se fossem externalizadas tais pessoas, tão plurais por ora, mas, agora, tão congruentes, o que lhes viria em mente? Seriam dissonantes seus acordos, seus acordes profanos e tão sagrados?
Em silêncio permaneceram. Estavam imersos em si. Estavam imersos, também, um no outro. Mais profundamente do que, provavelmente, jamais puderam estar.

- Déborah Moura -

Estou possesso. Não estou irritado, nem furioso. Estou possesso.Quando chegar o fim, quando chegar o dia do adeus, onde ...
10/05/2017

Estou possesso. Não estou irritado, nem furioso. Estou possesso.

Quando chegar o fim, quando chegar o dia do adeus, onde estaremos sentados? Quem virá ao meu auxílio, quem virá pedir meu abraço? A quem irei direcionar olhares desorientados que clamam por socorro? Fará sentido desesperar-se sozinho? Fará sentido não estar completamente entregue à solidão? Afinal, por que definições? Haveria meio de definir este cansaço mental, essa mão levantada por cima do lodo pantanoso? Quem está lá fora?
A cena é escura, a cena é profunda. Tudo será eco, mas não se pode precisar onde está a fonte. Por onde gritam, e por quê? Não fará mais sentido a gramática, nem meus papeis pendurados na parede, cuidadosamente emoldurados e improfanáveis até então. Mas tudo é profano, este solo é manchado de sangue. Quem não é? Vertigem, vertigem. Estarão todos em queda livre, mas quando é o fundo do poço? Qual o maior castigo para a mente infinitamente criativa? Pesadelos, o que são? Ruídos, ecos, ouvidos em explosão. O fim estará próximo, realmente? Estaremos todos à deriva, esperando por um contato. As estátuas se movem, são bocas de pedra a palpitarem, mas o que dizem? As maiores se movem pelo pasto verde, tudo pode ser verde no fim, mesmo que a sequidão tome conta de nós por inteiro. Nenhuma lágrima escorrerá, a boca seca, a saliva encruada na língua, gosma. Quem pode se dar conta do fim quando o encara pela face? De seus olhos saltam muitas cores, flashes pulsantes, é como o coração. Sangue pelo corpo, cores pelas mãos. Peles multicoloridas, estamos verdes, brancos, amarelos, verdes novamente. Quando o fim chegar, e se você estiver em sua sala, observando tudo pela tevê? Vejo muitas luzes, ele diz, mas não encontro resposta. Vejo muita claridade, mas o interruptor foi absorvido pela parede. E agora? A cena é escura, mas o que responder se a escuridão for, paradoxalmente, luzes derretidas escorrendo por suas paredes, tragando árvores, parque e gramas?
Quando o fim chegar, quem se levantará para acudir? Para onde correrão os bons, ou tais não passam de lendas que contamos, dia após dia, para podermos colocar a cabeça no travesseiro e conseguir ressonar? Você está numa cidade deserta, e o dia é muito claro. A luz te queima, penetra pelas pálpebras, mas o sol não está lá. Tudo é branco acima, e abaixo as pedras ardem. É um dia agradável apesar de tudo. Mas onde estarão todos? Você está numa praça deserta, há poucas árvores e um chafariz morto. Dentro, apenas folhas secas e luz. Olha para os lados, mas ninguém vem. E quando o fim chegar, quem sabe se ele não será uma completa clausura involuntária? Como anunciar que tudo está se acabando se não há quem possa ouvir? Talvez, por fim, você se resigna e senta no banco. E lá irá permanecer, solitário, à espera de um transeunte. E passarão séculos. E mais quantos outros séculos passarão até que possa perceber que essa é, em verdade, sua danação.
Quando o fim chegar, poderá tudo escurecer-se, e haverá outras cores, cintilantes. Tudo cintila, num universo de dimensões e propósitos sempre discretos demais. Quando enlouquecer, quando deitar-se ao chão e cravar as unhas na terra, quem saberá? A cena é profunda, mas a luz é alva. Há gritos no céu, mas são sons sem boca. Há uma alvura angelical, mas te queima e tudo é escuro ainda.

Estamos todos à deriva, ávidos pelo contato.

- Déborah Moura -

Quando você foi embora, eu senti raiva de Deus. Afoguei-me em um mar de perguntas e parecia não ter forças para reagir. ...
28/04/2017

Quando você foi embora, eu senti raiva de Deus. Afoguei-me em um mar de perguntas e parecia não ter forças para reagir. Como pode uma pessoa tão jovem ir embora assim tão cedo? Como algo tão cruel foi acontecer com alguém que sempre fez tanto bem a todos? Por que não tive a chance de me despedir? Por que eu permiti que tudo aquilo acontecesse? Cadê o meu último abraço? Por que Ele permitiu esse fim? O que eu faço com esse vazio aqui dentro? Confesso que não imaginava ser capaz de passar por tudo aquilo. Quando você partiu, uma parte minha morreu contigo. Um pouco da minha alegria, um pouco da minha infância, uma parte do futuro que sempre imaginei tendo você por perto. Quando você partiu, a minha risada mudou de som, o meu olhar perdeu a cor, a minha voz trocou de tom. Quando você partiu, eu desejei ir também, eu pensei em desistir, achei que não fosse conseguir. Foi quando um dia sonhei contigo e acordei sentindo cheiro de flor. De repente, pensei no seu sorriso e em tudo que me ensinou. Lembrei-me de todas nossas histórias, das nossas conversas e do quanto você foi importante enquanto esteve aqui. Imaginei todas as pessoas que existiram nesse mundo antes de você, e as outras tantas que ainda estão por vir. Pensei também naqueles que vivem por aqui ainda hoje, e me dei conta de que a esmagadora maioria deles não teve a sorte que eu tive. Sim, foi muita sorte mesmo. Porque de tantas vidas por aí, de tantos caminhos, de tantas possibilidades, você foi existir aqui, pertinho de mim. Foi breve, foi intenso e infinito. Quando me dei conta disso, fiz as pazes com Deus, pedi perdão pela ingratidão, agradeci por ter me dado a chance de te conhecer. Prometi me esforçar para não chorar mais. Que ia tentar lembrar-me de você com o sorriso que tantas vezes você me entregou de presente. Eu sei bem que a saudade será sempre uma visita constante, mas também já entendi que essa separação é momentânea. E agora, quando o cheiro de flor me visita pela manhã, imagino logo ser a forma que você encontrou de me desejar bom dia e de olhar por mim. Eu não sei se sou capaz de te perdoar, porque naquele momento, você se esqueceu de mim, foi egoísta e não imaginou que eu sofreria tanto. Mas entendo, há dores que são impossíveis de suportar. Mas e você? Depois de tudo o que fiz e do que eu não fiz, você é capaz de me perdoar? Eu serei eternamente grata por tudo o que você foi pra mim... E voa, minha ave, voa sem parar. Bem alto e pra longe, te encontrarei em algum lugar....

- Déborah Moura -

27/03/2017

Linhas escritas, porque muito ficou a ser dito, e a quem gostaríamos, não falaremos
É dura a dor da dor.

É duro a saudade, são doloridas as lembranças que não podem ser mais revividas. É difícil quando se instala permanentemente a ideia que não se poderá mais contatar o ausente, que ficaram palavras e frases inteiras por serem ditas. E não serão.

É difícil pisar novamente o mesmo chão, levantar a poeira e olhar pela janela. Porque o término de uma era carregou recordações inteiras e nas promessas de serenidade e paz que beirasse o absoluto eu já não acredito mais, já não as vivo mais. Em minha cabeça, desespero. Porque em tudo que vejo agora há decadência.

É dura a dor da dor.

É duro da voz ter somente a memória, não poder mais ouvir as histórias nem acompanhar os passos. É duro ver uma construção se desmoronando. É duro não poder mostrar vitória a quem muito a esperava. É duro não precisar mais se empenhar para fazer os cafés levemente amargos. É dura a dor da dor.

- Déborah Moura -

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Bauru, SP

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