29/10/2024
29 de outubro de 2006, domingo
Lua Crescente
Cidade de Santos
ILE ASE OBA NLA OYO OBA ATI BABA INA
Eu estava nervoso. Foram dias intensos, dias que mudaram minha vida e nos quais muitas pessoas se dedicaram para que tudo acontecesse da melhor forma possível. Era o primeiro a nascer depois da reabertura da casa, o destino marcado pelo número 6: filho da fartura, com as águas límpidas do rio, caminhando com o ferro sob a proteção de Osalá.
Nasci à moda antiga, com todos os medos possíveis. Dei todo o trabalho imaginável. A Senhora, minha mãe, dona de um axé único, usava mais o machado que o rio. Lembro-me exatamente do momento no apoti; minha mãe pequena estava à minha frente, chorando. Os cânticos começaram e, logo em seguida, o Senhor da fartura veio iluminar minha vida.
Não havia luxo, mas a energia ali era única, uma que nenhum outro lugar me deu. Lembro como se fosse hoje. Tudo mudou desde aquele dia, 29 de outubro de 2006. Dezoito anos se passaram. Eu mudei; o mundo mudou.
Nem melhor, nem pior, apenas mais sábio. Muitos daquela época já se foram, alguns morreram, outros apenas partiram. Mas lembro de cada detalhe, de cada sentimento. Guardei tudo – listas, orôs, jogos.
Odé deixou quem precisava f**ar e permitiu que os outros seguissem. Nunca foi meu destino ter uma casa aberta, mas talvez tenha contribuído mais do que se tivesse uma. Não tenho a resposta, apenas sei que foi assim.
Minha mãe, Deledda, é a senhora dos meus caminhos. Nem sempre fui um bom filho; na verdade, sempre fui questionador. Às vezes, vaidoso, como toda pessoa imatura, rebelde. O tempo é rei, sempre, e ele me moldou no ferro quente, na dor e nas conquistas.
Hoje, eu não me iniciaria nos moldes atuais. Sou um homem de axé e sabedoria, alguém que acredita na religião além das paredes. Os orixás sempre foram vivos, diariamente presentes na minha vida. Entendo agora o processo de iniciar alguém: quantos traumas escondidos, quantas dores. Compreendo estar dos dois lados. Nada é fácil. Todos os meus fantasmas apareceram, e meus traumas vieram juntos no processo. Ser iniciado requer responsabilidade, olhar além do corpo, entender a mente.
Depois de tantos anos e de tudo o que vivi, vejo tudo isso de forma diferente. Entendo quem eu era e reconheço que nem estava preparado para essa vida de santo.
Aqui estou, dezoito anos depois: mais exigente, mais incrédulo, mais crítico, e lamento isso. Cobro-me muito. Algumas coisas não negocio – minha fé nunca será medida pelas minhas vestes ou pelo luxo das festas. Por mim, nem festa haveria. Comeríamos galinha de orô e nada mais.
A religião ancestral, mesmo com textos modernos, ainda tem na simplicidade sua raiz.
Os tempos antigos não eram perfeitos, e muita coisa, sob meu olhar, não era correta. Mas hoje a situação piorou, quando deveria ter melhorado. Cada lugar tem seu modo, e tudo bem, mas a raiz ainda é raiz e tem seu contexto.
"A ti re okê. A ti re nu balé ba re iô."
OKÉ ARÔ AROLÉ
Oxóssi, caçador de caminhos,
aquele que não se perde na mata da vida.
Pai das flechas certeiras, do faro aguçado,
que guia seus filhos por trilhas seguras, invisíveis aos olhos.
Sou filho das folhas que curam,
dos rios que se movem silenciosos sob a lua.
Sou o canto das matas ao amanhecer,
a espera paciente, a busca incessante.
Oxóssi, rei dos caçadores,
é quem me ensina a escutar o silêncio,
a sentir o solo e os segredos sob meus pés,
a caminhar com a leveza de quem sabe a força que carrega.
Sou seu filho –
do vento leve, do instinto afiado.
É ele quem me mostra que coragem não é grito,
mas o passo firme, a honra escondida nas pequenas vitórias.
Kaô, Odé, pai de minha jornada,
guie-me sempre, ensine-me a caçar meus sonhos
como o caçador caça a vida
em cada fresta de luz que invade a mata densa.
texto, poesia Robson Khalaf