09/02/2023
Pedro Paulo Soares Pereira, mais conhecido como Mano Brown, vocalista e compositor, líder do grupo de rap Racionais MC’s, o grupo mais famoso e influente do Brasil por composições que protestam abertamente contra a polícia atingindo consequentemente o Estado e também a política com o propósito de combater o racismo.
Mano Brown não é um ativista que apareceu e se tornou famoso de um dia para o outro como estamos acostumados a ver atualmente. Sua história com o grupo já perdura por mais de 30 anos. As músicas mais famosas dos anos 90 e início dos anos 2000 que fazem sucesso até hoje, são: Vida Loka parte 1 e 2, Eu Sou 157, Jesus Chorou, Capitulo 4 Versículo 3, Negro Drama, Mil Faces de um Homem Leal (Marighella) entre outras.
Com o advento da internet descobriu-se com maior amplitude que Mano Brown não tinha nenhuma relação com o que cantava, mais precisamente com nenhum crime, na verdade, Brown cantava histórias que escutava. Prova disso é a música ‘’diário de um detento’’. Essa revelação parece que interessou mais os fãs de Racionais MC’s, levando-os a considerar o real proposito da banda como um protesto.
Mas, em um podcast recente de 2023 que o rapper comanda chamado ‘’Mano a Mano’’, disponível somente no Spotify, Brown entrevistou junto a Semayat Oliveira, o delegado de polícia e deputado federal Da Cunha. E em um desabafo Brown disse:
Mano Brown: (...) O Da Cunha, se liga, eu nem sonhava em fazer letra de rap, ser famoso, ser nada, eu tinha 12 anos, morava numa favela, eu já não gostava de polícia.
Delegado Da Cunha: F0d4, Brown!
Mano Brown: Não me ensinaram. Foi um medo que eu senti e uma palavra que ouvi. Uma humilhação, sentir medo humilha.
Delegado Da Cunha: Pra car4lh0!
Mano Brown: Eu senti medo de um policial dentro da favela, ele me intimidou fortemente, eu era uma criança e ali eu entendi que eu não era uma criança normal né? Era uma criança de favela, é outra coisa. Parece que isso é anormal né? Ele não ter respeito nenhum por uma criança.
Um moleque de 12 anos, um curioso né?
Muitas vezes eu critiquei a polícia. Com raiva de verdade, não raiva importada nem pirata, raiva de verdade, do fundo do meu coração eu fiz aquela rima "raça do car4lh0", tem que respeitar meu ódio.
Aquilo não foi pra me criar em cima de ninguém não, tá? É bom que todos eles saibam disso. Foi pra me criar não, eu tinha ódio mesmo. E o ódio tem que ser respeitado.
Eu era um moleque pobre do braço fino, sem condição de fazer mal pra ninguém. Eu era um "vítima". Mas eu tinha aquele ódio. Igual eu, milhares, milhões tem por aí.
Semayat Oliveira: Considerando tudo que o Brown acabou de dizer, né? Qual o risco que você acha que você corre de ser um delegado né, um policial e estar aqui, trocando essa ideia ouvindo o que ele acabou de dizer?
Delegado Da Cunha: (...) Se o cidadão parou pra escrever mal, parou pra xingar é obrigação do Estado, do Estado, perguntar e questionar e trazer esse cidadão "pro" lado...
(...) As pessoas estão insatisfeitas com a polícia? Onde é que a polícia está errando pra eu conquistar teu coração.
Eu quero que você me aplauda igual o cara aplaude nos Estados Unidos.
Nós, polícia, a gente tem que ir perguntar: "o que vocês estão put0s? Put0 com isso, com aquilo com a abordagem".
Mano Brown: Eu prefiro que você seja um bom policial e faça o certo do que seja um verme. Ser inspiração pra letra de rap. A gente não ganha nada com isso.
Podcast/Spotify: https://spoti.fi/3RAtBzo
Foto: Fepesil
: Foto colorida mostra o rapper Mano Brown em rara aparição a imprensa e em público, com o cenho abespinhado e gesticulando enquanto responde uma pergunta na aula aberta para os alunos da UNICAMP no final do ano de 2022.