06/01/2018
Texto de Marcelo do Lago.
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Serial killer, linguagem e fotografia.
Theodore Kaczynski foi um assassino que aterrorizou os EUA por duas décadas, matando e ferindo dezenas de pessoas por meio de cartas-bombas.
E James Fitzgerald foi o agente do FBI que analisou a linguagem de textos escritos por Kaczynski, permitindo com isso a identif**ação, prisão e condenação do criminoso.
É a linguagem, senhores.
A Discovery fez uma ótima série sobre o caso, disponível na Netflix (Manhunt: Unabomber), vale a pena assistir.
A análise da linguagem serviu para identif**ar o perfil de um serial killer graduado em Harvard com PhD em matemática.
A análise da linguagem pode então servir para coisas muito mais simples, como por exemplo identif**ar o caminho trilhado pelos bons fotógrafos em suas fotografias.
Se o agente do FBI analisou milhares de textos saídos de uma mente genial voltada para o mal, eu, Marcelo do Lago, o agente de um cursinho de fotografia, analisei milhares de imagens criadas por mentes geniais voltadas para o que há de melhor na arte fotográf**a.
Se o agente Fitz identificou um padrão na grafia de palavras, expressões idiomáticas e provérbios nos textos escritos pelo serial killer, o agente Lake identificou a repetição de referências visuais nas imagens dos mais renomados fotógrafos brasileiros e estrangeiros.
As referências visuais de uma fotografia podem representar diretamente o objetivo da mensagem ou podem estar relacionadas a esse objetivo, gravitando naquilo que chamo de mesma órbita signif**ativa.
Se o meu objetivo é fotografar a minha filha Katarina, será a imagem dela que em regra cumprirá a função de representá-la diretamente.
Mas uma fotografia - a rigor, qualquer mensagem - não é formada apenas por referências diretas, aquelas que estarão no núcleo do ato de comunicação.
Uma fotografia - de novo, qualquer mensagem - é formada também por referências, abstratas e concretas, que estarão fora do núcleo do ato de comunicação, mas gravitando ali, numa mesma órbita de signif**ados.
Veja as fotos da Katarina, repare que a imagem da Princesa Kate está invariavelmente acompanhada de outras referências visuais.
Pois é.
São essas referências que - acredite em mim e desculpa a não modéstia - conferem qualidade às fotografias.
E essas referências - continue acreditando em mim, por favor - são usadas pelos mais respeitados fotógrafos de todo o mundo.
O que fazemos no Curso Lake é justamente mostrar aos alunos que referências são essas, orientando-os para que as usem em suas fotografias, exatamente como faço nas fotos da pequena Kate - obviamente que cada aluno seguindo o seu próprio gosto, imprimindo a sua própria visão de mundo, formulando com o tempo o seu próprio estilo.
Mostramos no Curso Lake o que os bons fotógrafos fazem, mas os cursos não contam.
E não contam talvez porque nunca tenham se debruçado a estudar isso, nunca olharam para a fotografia sob o aspecto da linguagem, nunca tenham analisado milhares de fotografias e percebido o que elas têm de comum.
O agente Lake fez essa loucura.
O agente Fitz, de tão obcecado na pesquisa da linguagem do serial killer, já não dava mais atenção à família, por isso foi abandonado pela mulher e filhos, indo morar sozinho nas montanhas.
O agente Lake foi mais pragmático em sua maluquice, trouxe a mulher e as crianças para dentro do hospício Lake, aqui fazemos tudo juntos: pesquisamos, aprendemos e transmitimos o que aprendemos, um dia quem sabe vai todo mundo para as montanhas.
Mas não sem antes passar a nossa mensagem no ensino da fotografia:
É a linguagem, senhores.