TÃO PERTO, TÃO LONGE
Ao rever as minhas primeiras fotos, feitas da sacada de meu apartamento no bairro Bom Retiro em São Paulo nos anos 60, percebi o quanto já estava inscrito naquelas imagens um certo espírito voyeurístico-acanhado que me acompanha até hoje. As fotos através dos fios que se postavam exatamente à frente de minha janela, sendo esta, minha vista por mais de quinze anos; se por um l
ado prenunciavam um caminho cheio de eletricidade e ação, de outro revelavam um caráter tímido e contemplativo no sentido oposto desta ação eletrificada. Robert Capa famoso foto-jornalista de guerra, morto em combate, levou ao extremo sua máxima: "Se as fotografias não são boas o bastante, é porque você não está próximo o suficiente".
É óbvio que os pressupostos que me regem como fotógrafo são bem diferentes do território em que Capa se movia, e sua grandeza e genialidade não deveriam permitir sequer esta menção, mas talvez a fotografia tenha sido a via possível e a câmera meu instrumento na convivência com o tal dilema: perto-longe, invasão-respeito a privacidade. O fato é que o conjunto das minhas fotografias, parece apontar exatamente para as duas faces dessa ambiguidade: O teatro das fotos construídas e dramatizadas realizadas no âmbito de um estúdio, ou mesmo em locações externas que contemplam um caminho mais voyeurístico, onde há sempre alguma coisa se interpondo entre a câmera e os seus sujeitos/objetos; e os retratos secos, crus e diretos de uma proximidade quase cirúrgica, que ao contrário do que pensa a maioria, não me autoriza maiores intimidades com os meus fotografados. Tentativas de explicações a parte, talvez a única coisa que importe mesmo, seja a intensidade emocional contida nestes breves encontros que são as sessões fotográficas, apesar de minha longa experiência, é isso que me mantém fotógrafo.