06/04/2020
São Paulo e a Pandemia
por Cristina Nishihara
[Fotos: Leandro Salles]
As grandes ruas comerciais estão sem multidões e suas principais vias sem congestionamento. Uma situação que outrora pareceria utópica para uma grande capital como São Paulo, hoje configura um cenário oposto. Como se a atualidade fosse escrita pela colaboração entre Camus e Orwell, vivemos dias de uma distopia complexa.
O combate a pandemia ao COVID-19 colocou em isolamento há duas semanas boa parte dos quase 12 milhões de habitantes da cidade, tirando também de circulação tantos outros que faziam o movimento pendular diariamente pela região metropolitana. A quarentena que em um primeiro momento assustou a todos, parece ter tomado seu lugar no cotidiano.
Já parou para pensar com quanta naturalidade você lava a mão compulsivamente dentro da própria casa? Ou que não liga mais para passar desinfetante em tudo que trás do mercado? A estranheza da epidemia aos poucos dita novas regras de vida, molda o que compreendemos como normal.
Para alguns, a normalidade tornou-se home office, longas chamadas de vídeo com a equipe de trabalho, algum momento prosaico dentro do apartamento enquanto, aos poucos, passa a ter noção de que sua mão de obra é super explorada e sub remunerada. Quem está no regime de trabalho a distância não trabalhou mais horas do que no escritório que atire a primeira pedra.
A normalidade torna-se mais precária quando o olhar recai sobre a população que sempre foi marginalizada — e que, por isso, f**a longe da vista da grande classe média da cidade. Não é difícil encontrar trabalhadores informais com graves necessidades financeiras decorrente dessas poucas semanas de quarentena. Sem ter dinheiro para comer ou morar, recorrem a caridade ou a persistência de tentar conseguir qualquer bico para prover suas famílias.
A pandemia escancarou o problema brasileiro pelo viés do terror: a desigualdade social. Por mais que se clame que o vírus não escolha classe para abater uma pessoa, é evidente que onde a mortalidade começa a ser alarmante dentre aqueles que sempre estiveram desassistidos socialmente —seja na saúde, na educação ou em qualquer outra área que possa pensar. A estrutura social brasileira é forjada para fazer a população mais pobre perecer.
Dentro da nova normalidade que promete se estender para muito além de qualquer quarentena, a tragédia brasileira toma novas proporções, chocando apenas aqueles que a sentem na pele. O rasgo das milhares de covas abertas no chão da Vila Formosa estarrece apenas até serem preenchidos pelas vidas interrompidas, não somente por um vírus, mas pelo desamparo.
Uma bolsa auxílio é distribuída. Tendas configuram hospitais. Você faz sua máscara em casa. E o cheiro da carne humana triturada no moinho do descaso público impregna ao ponto de não sentirmos mais nada. É o novo normal na cidade que nunca para.