07/04/2026
LUCIANO BORGES RIBEIRO (1947-2026)
Há poucas horas, eu soube que a nossa Uberaba perdeu um dos seus mais notáveis empresários do agronegócio e – ao mesmo tempo – um personagem com uma história rica, única e fascinante. Após persistente e corajosa luta por sua saúde, nos deixou nesse dia 6 de abril o engenheiro, empreendedor e pecuarista visionário Luciano Borges Ribeiro. Bem no momento em que o seu Rancho da Matinha completa 50 anos de atividades, e em que acabava de realizar mais um dos seus famosos leilões, com o sucesso habitual.
Meu convívio com Luciano foi curto, mas bastante intenso. Ainda que fôssemos parentes distantes, por diferentes ramos da grande família Borges, eu não o conhecia pessoalmente até março do ano passado, quando fomos apresentados por um amigo em comum. Com a chegada dos 50 anos da Matinha, Luciano estava ansioso por deixar registrada a história e os caminhos que o levaram a se tornar uma lenda viva entre os criadores de gado de corte da raça Nelore. E me contratou para ajudá-lo a transformar sua memória e seus arquivos em um livro comemorativo.
Durante o resto do ano de 2025, eu mergulhei em dezenas de vídeos no YouTube, artigos de revistas e alguns livros técnicos em busca de explicações para o desenvolvimento impressionante e o inegável sucesso comercial da Genética Matinha. Em paralelo, nós tivemos uma sucessão longos encontros e bate-papos, distribuídos entre São Paulo e Uberaba. Que se somaram às entrevistas com os familiares, parceiros e colaboradores técnicos, com as conversas com os funcionários da Matinha e com os amigos em comum. Pouco a pouco, fui tomando pé num labirinto de assuntos que eu nem imaginava que existiam ou – muito pior – dos quais eu até pensava que entendia alguma coisa, antes de tomar tento do tamanho da minha ignorância. É como diz aquele velho samba, "em cada experiência, se aprende uma lição".
Mas em meio às leituras sobre critérios de avaliações intra rebanho, às análises de progênie, às provas de eficiência alimentar, também foram se desenovelando os fios da história de vida desse homem singular, movido desde a infância por um desejo quase missionário de se tornar um criador de gado Nelore da melhor qualidade. Luciano era um "Borges sem fazenda", criado numa família relativamente modesta, que foi buscar no mundo dos negócios, das obras de engenharia e dos shopping centers os recursos para realizar o seu sonho.
Ainda numa das nossas primeiras conversas, ficou claro que o livro dos 50 anos não iria ser um mero folheto promocional e auto elogioso do sucesso da fazenda ou da consagrada genética dos seus touros e matrizes. Em lugar disso, fomos buscar no exemplo distante do pecuarista Teófilo de Godoy – o primeiro triangulino a se aventurar pelas terras misteriosas da Índia em busca do gado zebu – a inspiração para fazer dessa obra um "guia de viagem". Um "roadmap" voltado a transmitir às novas gerações de criadores meio século de experiência, de erros e acertos, de sucessos e fracassos, que possam ajudar os jovens a encontrar o seu próprio caminho das pedras na aventura que é dedicar a vida ao melhoramento genético na pecuária zebuína.
Os últimos doze meses foram de trabalho intenso, onde ambos enfrentamos (até literalmente) alguns tropeços, tombos e imprevistos. Mas, como dizia o homem de fé Luciano, "Deus sempre nos ajudou". E o resultado está aí: no início do mes de março, ficou pronto o livro autobiográfico "A Engenharia do Nelore: 50 anos do Rancho da Matinha", de autoria de Luciano Borges Ribeiro. Uma obra com muita informação técnica e histórica, com belas fotos, e com alguns causos pouco conhecidos da nossa Uberaba. Além de depoimentos que contam um pouco sobre o que é a Matinha e sobre o homem que sempre foi a alma desse negócio.
Ao receber a notícia da sua partida, me envolveu um misto da tristeza dolorida em perder um amigo tão recente, com a felicidade doce de ter colaborado para realizar um de seus sonhos. Tenho certeza de que Luciano se despede inconformado em sair de cena ainda tão cedo, mas com a certeza de que sua missão foi cumprida com talento e elegância dentro do tempo limitado que ele, assim como todos nós, temos nesse mundo. Aqui da minha casa em São Paulo, vou tomar uma dose de uísque e brindar em sua homenagem. Mando um abraço imenso para sua incansável companheira Vicky, para as filhas Fernanda, Letícia e Júlia, para o Tomás, para os netos, para o Fred, Lu, Betinho e Nenê – que tanto nos ajudaram na produção do livro.
Luciano gostava de dizer que não havia sido programado para o lazer: na lida com o gado era onde achava diversão, prazer e recompensa – ao ponto de visitar fazendas de criação até nas viagens de férias com a família. Nos campos do Senhor, já deve estar em busca do touro Sherlock, do lendário nelore indiano Golias, que conheceu na adolescência, do seu querido cavalo de apartação Circle Doc. Pois siga em paz, boiadeiro. Uberaba e a pecuária brasileira só têm o que lhe agradecer.
(ANDRÉ BORGES LOPES)