16/08/2026
Há tradições que não pertencem apenas ao passado. Pertencem a quem ainda as faz.
Na Agualva, na Ilha Terceira, o 15 de agosto é dia de Nossa Senhora de Guadalupe, a quem o povo há muito chama Nossa Senhora das Pêras.
Contam os antigos que o nome terá nascido porque era por esta altura do ano que havia muitas peras na terra. Uma história passada de geração em geração, como tantas outras que sobrevivem não nos livros, mas na memória das pessoas.
Na véspera da procissão, a Agualva muda.
As portas abrem-se, as pessoas saem de casa e a rua passa a pertencer a todos.
Durante horas, homens, mulheres, jovens e crianças trabalham lado a lado. Há quem desenhe, quem carregue, quem espalhe as flores e quem, simplesmente, se sente por alguns minutos à porta de casa a olhar para aquilo que vai crescendo diante dos seus olhos. Pouco a pouco, o asfalto desaparece. No seu lugar nasce um caminho de flores, cores e formas que atravessa parte da freguesia e que tem um único destino: receber a passagem de Nossa Senhora.
Talvez o mais bonito destes tapetes não esteja nos desenhos perfeitos nem nas milhares de flores que cobrem as ruas. Está nas pessoas. Nas mãos mais velhas que sabem como se faz. Nas mãos mais novas que começam agora a aprender. Na conversa, no riso, no cansaço, na ajuda de quem passa. Na sensação de que, naquele dia, ninguém está verdadeiramente sozinho.
E depois chega a procissão. Os andores passam sobre o caminho que “a terra” inteira preparou para ela. As flores são pisadas, as formas desfazem-se e, pouco a pouco, aquilo que levou tantas horas a construir desaparece. Dali a pouco, a rua volta a ser apenas rua. Mas talvez seja precisamente essa a beleza. Fazer algo tão bonito sabendo que não foi feito para durar.
Porque os tapetes desaparecem.
O que f**a é o povo que os fez.