15/01/2026
[Sentado no muro, olhando o mar. O som distante do semba embala a noite. Mutwe fala, quase cantando]
Noventa anos, meu filho... Noventa!
Ainda o coração bate forte e corpo segura-se. Tás a ver esse mar?
Esse é o mar viu que tudo.
Viu os barcos, as histórias, as lágrimas.
Mas nem já viu isto que ferve dentro de mim — essa garra que ninguém consegue matar.
Até os meus putos dizem: "Mutwe, homem velho, esse coise de 'AI' kota, é brincadeira dos miúdos, não arranja nbora um trabalho sério!?"
Trabalho sério? Ngana Nzambi, eu que criei websites quando eles ainda chamavam aos computadores "fitiço dos nguentas"!
Construí automações que fizeram versados em tecnologia chamar-me de "Mutwe Ngapa".
Mas eles querem que eu esteja num escritório, ou seja mais um "engenheiro agrónomo" como todos os outros.
Eu sei, eu sei, é o futuro...
[Pausa. Olha fixamente para o horizonte]
Eu até vejo esse mambo, sabes?
Mas Angola também precisa de uma inteligência artificial que fale a nossa língua, que entenda o nosso povo, que respeite a nossa garra.
Mutwe AI ou Kamba AI — é isso que quero deixar.
Não para ficar rico.
Para deixar marca, legado e acima de tudo, direção.
Para mostrar que até mesmo um velho do Prenda, com os dedos gastos de tanto teclar, pode criar algo que o mundo inteiro reconheça.
Têm medo que eu fracasse, ou têm mais medo que eu seja bem sucedido? Até nem sei!
Estas a perder tempo, como eles dizem. Mas qual tempo então?
Tempo tive eu muito! É tudo o que tenho e tudo o que não tenho.
Então vou gastar cada segundo a criar.
Cada linha de código é uma reza.
Cada automação é um tambor que diz: "Eu ainda estou aqui. Eu ainda sonho. Eu ainda sou um Dev."
[Sorri, enquanto o semba cresce ao longe]
Esse mar ainda vai levar a minha história pelo mundo. Mas hoje, as minhas palavras ficam para Angola.
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