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Lemonnierfoto Fotografia, gastronomia e cultura visual. Imagens entre comida, território e memória.

E se a gema fosse o packaging do açúcar?Quando pensamos na doçaria portuguesa de origem conventual e monástica, a imagem...
22/07/2026

E se a gema fosse o packaging do açúcar?

Quando pensamos na doçaria portuguesa de origem conventual e monástica, a imagem é quase sempre a mesma: doces amarelos, feitos de gemas brilhantes e muito açúcar.

A explicação habitual fala do aproveitamento das gemas.

As claras teriam outros usos: clarif**ar vinhos, algumas preparações culinárias, talvez práticas domésticas ou artesanais. Fala-se muitas vezes de engomar roupa, mas a roupa engomava-se sobretudo com amido.

Por isso, a história das gemas que “sobravam” talvez diga menos sobre desperdício e mais sobre a nossa necessidade de explicar o luxo como aproveitamento.

As gemas não explicam tudo.

Há outro ângulo possível: o valor.

No século XVIII, a comida pesava muito mais no orçamento das famílias do que hoje. Açúcar e ovos não devem ser vistos com olhos de supermercado.

O açúcar era uma matéria-prima cara: atlântica, ligada ao comércio, ao poder e à distinção social.

Usar muito açúcar podia comunicar luxo, festa, encomenda, oferta, celebração, mesa de quem podia pagar.

Muitos conventos e mosteiros precisavam também de diversif**ar as suas fontes de receita. A doçaria podia transformar ingredientes, técnica, tempo, clausura e reputação em valor económico.

A gema acrescentava outra camada.

Não dava apenas sabor ou textura.

Dava imagem.

O açúcar tinha valor económico; a gema dava-lhe valor cénico.

Antes de ser provado, o doce já comunicava riqueza.

O dourado era o packaging invisível do açúcar.

Antes de haver marca, caixa ou etiqueta, havia cor.

E aquela cor dizia: isto é precioso.

Talvez a doçaria de ovos não seja apenas uma história de aproveitamento.

Talvez seja também a história de como o açúcar foi transformado em imagem — e essa imagem em valor.

PORCATUM vermelho Juntarmo-nos à volta de um grande atum tornou-se um acontecimento. Reserva-se lugar, observa-se o cort...
14/07/2026

PORCATUM vermelho

Juntarmo-nos à volta de um grande atum tornou-se um acontecimento. Reserva-se lugar, observa-se o corte, provam-se as diferentes partes, fotografa-se e publica-se. Sobretudo, pode dizer-se: estive lá.

O animal entra inteiro, o especialista ocupa o centro e as pessoas aproximam-se. As facas, a precisão e a escala transformam o desmanche num espectáculo.

Também nos juntámos, durante muito tempo, à volta de outro animal: o porco. Em alguns lugares, ainda acontece. Na desmancha havia família, amigos e vizinhos. Alguém sabia abrir, separar e aproveitar cada parte. Os outros ajudavam, aprendiam e comiam.

As práticas não são iguais, mas a imagem é próxima: pessoas reunidas em torno do corpo de um animal enquanto alguém o transforma em alimento.

O que muda é o enquadramento.

A desmancha do porco acontecia na quinta, no pátio ou na cozinha. O corte do atum tem lugares marcados, luz controlada e telemóveis levantados.

A febra vai às brasas com umas pedras de sal. No atum, o maçarico passa a chamar-se braseado e a soja dá-lhe o toque final.

Os vermelhos são quase iguais. Mas o vermelho do atum parece mais intenso, mais limpo, mais fotogénico. Será por isso que produz uma imagem mais desejável?

Quem participa na desmancha do porco arrisca-se a ser visto como rústico. Quem assiste ao corte do atum é visto como apreciador.

Porquê?

Talvez porque a morte do atum aconteceu longe e até nós chega apenas a parte mais controlada e visual do processo. Talvez porque hoje pagamos para assistir ao corte de um e, antes, participávamos directamente na desmancha do outro.

O que é estranho é aceitarmos imediatamente o corte do atum como cultura e tratarmos a desmancha do porco como atraso.

Será o atum mais sofisticado do que o porco? Ou serão o lugar, o preço e a imagem que tornam um gesto admirável e o outro desconfortável?

Talvez a literacia alimentar comece aqui: na capacidade de olhar para os dois animais com a mesma atenção.

COMIDA CENTRAL

Comida, território, memória, imagem e pensamento gastronómico.

Nem Cru Nem FrioPortugal é um país quente, mas a sua cozinha raramente escolheu o cru ou o frio como linguagem principal...
07/07/2026

Nem Cru Nem Frio

Portugal é um país quente, mas a sua cozinha raramente escolheu o cru ou o frio como linguagem principal.

A pergunta nunca foi muito: “isto pode comer-se cru?”
Foi quase sempre: “como é que isto se cozinha?”

O cru existe. O frio também. Há saladas, gaspacho, ostras, escabeches, polvo, grão. Mas muitas vezes o frio português já passou antes pelo lume: foi cozido, frito, temperado, transformado.

Mesmo quando a comida chega fria, traz quase sempre uma história de calor.

Talvez por isso seja tão difícil fotografar uma comida portuguesa fresca, crua e fria sem cair logo no tomate, pepino, cebola, azeite, vinagre, tigela e verão alentejano.

Até nas sanduíches, as mais afectivas são quentes: prego, bifana, francesinha, tosta mista.

Depois chegaram o sushi, o sashimi, o ceviche, o carpaccio, o tártaro. O cru moderno entrou em Portugal, sim. Mas muitas vezes mais como estatuto urbano do que como gosto enraizado.

Entre isso e uma boa caldeirada, muitos portugueses ainda não hesitam muito.

Portugal continua mais confortável com a comida transformada do que com o alimento nu.

Nem cru. Nem frio.
Cozinhado.

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Da mão para a tábuaQuem ainda se lembra de um caldo-verde feito com couve segada?Imagine-se a cena vista de muito perto,...
24/06/2026

Da mão para a tábua

Quem ainda se lembra de um caldo-verde feito com couve segada?
Imagine-se a cena vista de muito perto, quase como numa fotografia macro: a folha enrolada, os dedos a segurá-la, a lâmina a descer em movimentos curtos e rápidos. A couve cai em fios finíssimos, quase como renda vegetal. No caldo, cozinha depressa, mas sem perder presença.
Não falo da couve cortada por máquina, toda igual, rápida, funcional. Falo da couve segada quase milimetricamente, em fios finos, vivos, irregulares na medida certa. Uma couve assim mantinha textura, verde, sabor e gesto.
Depois vinha a cebola, petada em pequenos golpes certeiros, para dentro da panela. A batata caía logo para a água ou para o caldo. Mais tarde, o chouriço podia ser fatiado do mesmo modo, deixando cair as rodelas na sopa.
Cortar assim tinha outra inteligência: os alimentos que libertam sumo iam directamente para a tigela, para a vasilha ou para a panela. Nada se perdia na tábua. Quase tudo podia ser trabalhado com a mão como apoio, a faca como extensão do gesto e o recipiente como destino imediato.
Na cozinha profissional moderna, a autoridade passou para outro lugar: a bancada, a tábua, a faca grande, a mise en place, o corte regular. Nada contra isso. Mas essa mudança também alterou aquilo que aprendemos a reconhecer como técnica.
O antropólogo David Sutton descreveu algo semelhante na ilha grega de Kalymnos: mulheres de várias gerações a cortarem alimentos na mão, com pequenas facas, sem tábua. Em Portugal, os sinais estão no vocabulário: segar — ou, na fala popular, “cegar” — a couve, petar a cebola, migar o pão e o tomate, ripar folhas, aterçoar couves. Cortar não era apenas cortar. Era gesto, corpo, alimento e finalidade.
Muitos saberes domésticos — sobretudo femininos — perderam estatuto. Não porque fossem menos precisos. Mas porque pertenciam à casa, à repetição diária, à oralidade, à comida feita sem espectáculo, sem fotografia, sem imagem.
A tábua não inventou a técnica.

Antes dela, havia a mão.

O que nasceu primeiro: o frango, a travessa ou a tradição?O frango no churrasco é o fast food português?O frango no chur...
18/06/2026

O que nasceu primeiro: o frango, a travessa ou a tradição?
O frango no churrasco é o fast food português?

O frango no churrasco pode ser lido como uma tradição moderna portuguesa.
Não vem de um passado remoto. A sua história parece mais ligada ao século XX, quando a comida começa a responder a outras necessidades: alimentar mais pessoas, com mais regularidade e a preços mais baixos.
A avicultura muda. O frango deixa de ser uma carne ocasional e torna-se uma proteína comum.
Antes dessa transformação, era outro animal: mais caro, menos disponível, muitas vezes maior, mais velho e mais rijo. Prestava-se melhor a cozinhas lentas: canja, cabidela, arroz, estufados.
O frango no churrasco popular torna-se possível quando essa matéria-prima muda. Já não falamos apenas de uma grelha. Falamos de produção, preço, regularidade, restauração e serviço rápido.
Mas a tradição também passa pela imagem.
O prato reconhece-se pela forma como aparece: frango aberto, pele tostada, batata frita, arroz, molho e travessa de inox.
E depois há o piri-piri.
O piri-piri talvez não tenha criado o prato, mas ajudou a criar a sua imagem.
Sem a travessa de inox, o frango continua a ser frango. Mas já não f**a bem na fotografia. Perde o palco. Perde o brilho. Perde uma parte da sua tradição visual.
Há aqui uma ironia interessante: uma comida que hoje parece tão familiar depende de dois elementos modernos: o frango industrial e o inox.
Talvez seja isso que torna uma comida tradicional: não a idade da receita, mas a sua capacidade de organizar hábitos colectivos.
O frango no churrasco não vem de um passado remoto.
A imagem que temos dele parece que sempre lá esteve.

Endereço

Lisbon
PORTUGAL

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