Por Detrás

Por Detrás As fotografias desta exposição são disso exemplo, fruto da experiência no “terreno”, algo que é impossível de aprender nas academias.

Exposição fotográfica integrada no Mês da Imagem do Porto, de 30 de Outubro a 30 de Novembro de 2021, na Confeitaria Nandinha, Rua Serpa Pinto 74, 4050-128 Porto Biografia : Após a licenciatura em Tecnologia da Comunicação Audiovisual, em 2012, na Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo do Porto, e Pós Graduação em Fotografia, na Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa em

2013, teve o seu estágio curricular, como foto-jornalista, na redação do Porto, do jornal “PÚBLICO” . Desde Março de 2013, é colaborador freelancer da Agência NFactos


Sinopse : Apesar do código deontológico do foto-jornalismo definir que uma imagem deve ser clara, objectiva, retratar os factos com rigor, e interpretá-los com honestidade, por detrás de uma fotografia que o leitor observa num jornal, ou num site, existe algumas vezes uma pequena história, que antecede o momento da captação.

Agosto 2016; Estávamos no centro da aldeia, em conversa com o Comandante do Bombeiros, a aguardar que o fogo chegasse a ...
07/10/2021

Agosto 2016; Estávamos no centro da aldeia, em conversa com o Comandante do Bombeiros, a aguardar que o fogo chegasse a um local onde os auto-tanques e as mangueiras tivessem acesso. Entretanto surge um jipe da GNR, conduzido por um militar, ex-bombeiro. O Comandante grita; “…Nelson, leva-me lá a cima, ao cume do monte, que eu quero ir ver onde está o cabeço do fogo…” . De imediato o militar se disponibiliza para levar o Comandante, e eu pergunto-lhe; “…posso ir convosco ? ….” É regra deontológica não sermos noticia. Mas ponderando os riscos, ia com um militar experiente, mais um Comandante de Bombeiros, portanto risco não ia correr. E assim fomos, redutoras do jipe ligadas, a subir cerca de 600 metros, com um inclinação razoável. Chegados ao cume, de imediato sentimos o “bafo” de um temperatura seguramente a rodar os 500 º . O comandante sai do jipe, e grita; “….Vira já essa m@rda para baixo. Têm cuidado com os pneus….Vira essa m@rda rápido….” A frente de fogo estava a metros de nós, com forte intensidade. Dentro do jipe o silêncio era tão grande que o disparar da máquina ecoava. Quem diria, ultrapassei a fronteira do risco calculado. No regresso, o Comandante gracejava: “….Oh Senhor Rui, grande noticia que ia acontecendo. Um GNR, um Comandante dos Bombeiros e um Jornalista morrem torrados dentro de um jipe….” Tinha razão. Nunca mais confio… há sempre alguém mais “louco” que nós…..

Rui Farinha Fotografia, Publico, Fotojornalismo, Photography

Junho 2016; Começamos às 05 da madrugada, na Lota de Matosinhos. A reportagem era a nível nacional, sobre a pesca da sar...
07/10/2021

Junho 2016; Começamos às 05 da madrugada, na Lota de Matosinhos. A reportagem era a nível nacional, sobre a pesca da sardinha, e decorria em diversos portos, de norte a sul de Portugal, em conjunto com outros camaradas do jornal. Esta fotografia está “ao contrário” daquilo que deve ser um rosto da noticia. É um enquadramento integral, sem cortes, mas não existem “rostos”, os braços estão cortados contra as regras do enquadramento, etc. Mas às vezes vale a pena ser “fora da caixa”. Principalmente quando temos editores que entendem esta “rebeldia” , No dia seguinte foi primeira página do jornal. Valeu a pena “cortar” os rostos, as pernas e os braços…..

Janeiro 2013;  Jornadas Parlamentares. Mais um serviço daqueles em que nada de interessante vai acontecer. Errado. Acont...
07/10/2021

Janeiro 2013; Jornadas Parlamentares. Mais um serviço daqueles em que nada de interessante vai acontecer. Errado. Aconteceu. Estava no lado certo da mesa. Antonio José Seguro aborda o camarada do jornal “EXPRESSO”, Rui Duarte Silva, e diz-lhe; “….quando vejo tantos fotógrafos minha frente, só me apetece fotografar-vos…” . O Rui Duarte Silva não hesitou, passou-lhe a sua segunda câmara para as mãos. E aqui está o momento. O porquê de estar no lado certo da mesa ? Provavelmente porque nem sempre o lado mais obvio é aquele em que a acção acontece. E esta fotografia também têm o seu lado de “anti” deontológico. Devemos evitar que camaradas de profissão fiquem na imagem. Mas neste caso, justifica-se perfeitamente. Inclusivé dias após, o “EXPRESSO” publicou o “outro” lado da noticia

Janeiro 2013 ; Ao chegar ao local, estaciono o carro em segurança, deparo com o esforço de dois bombeiros em salvar o fu...
07/10/2021

Janeiro 2013 ; Ao chegar ao local, estaciono o carro em segurança, deparo com o esforço de dois bombeiros em salvar o funcionário da concessionária da auto-estrada, que tinha sido atropelado minutos antes. E agora ? Tenho luz, era o único jornalista presente, mas como dar rosto à noticia ? Apesar da morte estar associada ao inicio da fotografia, no final do século XIX, pela necessidade que a sociedade tinha na altura de “guardar para memória futura” a imagem dos seus entes falecidos, como é que vou fotografar com dignidade um ser humano que há minutos estava vivo ? Como é que a sua família reagirá amanhã, quando vir a notícia no jornal ? Fotografo só os pés ? Como partilhar / contextualizar o que aconteceu, de uma forma íntegra, e ao mesmo tempo digna com os leitores do jornal? Podia ter fotografado detalhadamente a fatalidade. Não me arrependo de o não ter feito. É, provavelmente, até hoje, a fotografia mais difícil que captei.

Dezembro 2012; Ao final da tarde, alguém na redação diz; “Rui, vai até à Lapa, que houve um acidente num posto de transf...
07/10/2021

Dezembro 2012; Ao final da tarde, alguém na redação diz; “Rui, vai até à Lapa, que houve um acidente num posto de transformação da EDP”. Ao chegar ao local deparo com um quadrado no chão, a fumegar. E agora ? Isto não é nada ! Como é que vou dar rosto à noticia ? Com a ansiedade do escritor para com a folha em branco. observo e apelo à criatividade, para captar pelo menos uma fotografia que fosse algo mais que um quadrado no chão, sem gente, a fumegar. Baixo-me, acerto o foco na placa interior “Perigo de Morte” e de repente sai um técnico da EDP vindo do interior do posto. Ambos nos “assustamos”, pois nenhum de nós esperava o outro. Quando regressei à redação, alguém comentou; “…sorte de estagiário…. “

Dezembro 2012: Fotografar as consequências de um temporal é sempre “fácil”, pois a destruição e a desgraça são infelizme...
07/10/2021

Dezembro 2012: Fotografar as consequências de um temporal é sempre “fácil”, pois a destruição e a desgraça são infelizmente fotogênicas. Mas captar imagens diferentes / “estranhas” é um desafio. Esta arvore foi destruída por um raio, mas forma como ficou no terreno, dá uma sensação de suspensão. A fotografia é ás vezes uma forma de ficção, pois é ao mesmo tempo, um registo da realidade, e um autorretrato, porque só o fotógrafo vê aquilo daquela maneira.

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